oral sin
Especial | ARTIGOS COLUNISTAS

Geral

28 de Abril de 2020 ás 08:07:00

A sexualidade na gestação:percepção de gestantes de um grupo educativo

 O período gestacional é repleto de particularidades, é uma das fases da vida da mulher que mais requer atenção, pois é um momento em que ocorrem mudanças físicas, emocionais, existenciais e sexuais, fato que exige uma série de adaptações. Compreendendo-se essa problemática, o objetivo geral do estudo foi analisar a percepção das gestantes participantes de um grupo sobre a sexualidade na gestação. Tratou-se de uma pesquisa descritiva e exploratória, com abordagem qualitativa, em que os sujeitos foram sete mulheres grávidas que faziam parte do grupo de gestantes atendidas na Unidade Básica de Saúde Jardim Botânico na cidade de Sinop-MT. As entrevistas foram realizadas de forma individual e privativa, em sala reservada, sem identificação dos nomes das participantes que foram codificadas por nome de flores escolhidas aleatoriamente, os dados foram analisados pela técnica de análise de conteúdo, modalidade temática, por meio da elaboração de categorias não-apriorísticas.

Foram obtidas cinco categorias de análise, por meio das falas das participantes: Desconfortos físicos ocasionaram mudanças negativas nas relações sexuais; Convivendo de forma positiva comas mudanças físicas ocorridas na gestação; Mudanças e adequações sexuais durante a gestação; Sentimentos de medo e culpa em relação ao bebê; e Sensação de dor durante o ato sexual. O estudo mostrou que as gestantes associam as mudanças no comportamento sexual, seja de maneira positiva ou negativa, aos desconfortos físicos e psicológicos da gestação, na percepção delas, essas mudanças de comportamento sexual decorrem da gravidez.

Evidenciou-se ainda, que alguns casais adaptaram suas práticas sexuais conforme a necessidade por parte da gestante, mas que ao mesmo tempo, possuem dificuldade em ter uma relação sexual por medo ou receio de estarem fazendo mal ao bebê. Através das falas, pode-se reafirmar a submissão feminina ao ato sexual, por demonstrar que muitas vezes para a gestante este é um momento doloroso e sem prazer, no entanto, ela se submete para não deixar de cumprir com suas obrigações de esposa. A sexualidade, especialmente na gestação, ainda é um assunto tratado de maneira superficial, rodeado por mitos e tabus. Logo, acredita-se que esta pesquisa serviu como abertura de caminhos para novos estudos, sugerindo maior aprofundamento nos temas referentes à dor e submissão ao ato sexual durante a gestação.

A gravidez é um momento fisiológico que se configura como um período de adaptações e de várias mudanças físicas, emocionais, existenciais e também sexuais que, é vivenciado por cada ser, de forma singular, que podem influenciar de maneira tanto positiva quanto negativa na vida da mulher, alcançando setores importantes inclusive a sexualidade (MOREIRA, 2006). Durante essa fase, a mulher a necessita de cuidados especiais, na parte física que seriam as consultas e acompanhamento no pré-natal, e na parte psicológica, através do apoio familiar, do acompanhamento de saúde durante a gestação e de grupos educativos com o intuito de amenizar os possíveis conflitos dessa fase através do diálogo, troca de experiências e da educação em saúde. É importante que a equipe de saúde preste todo apoio, atenção e suporte necessário para esta mulher e se faz necessário também que estes profissionais compreendam melhor a percepção dessas mulheres frente a tantas mudanças ocorridas nessa fase, para que dessa maneira, o atendimento e acompanhamento dessa gestante tenham uma boa qualidade, seja harmonioso e humanizado, e promova o cuidado integral.

É possível observar que autores relatam que nas consultas, os profissionais se limitam a verificar peso e medidas da gestante, ausculta de batimentos cardio-fetais (BCF), leitura de exames de forma tão mecânica que se esquecem de perguntar como essa gestante está em outros seguimentos de sua vida, como por exemplo, no relacionamento conjugal e o relacionamento sexual (LECH; MARTINS; 2003). O sexo é uma necessidade fisiológica, faz parte do cotidiano das pessoas e hoje não é visto somente como forma de reprodução, e na mulher grávida não é diferente. O sexo na gravidez não é proibido, se a gestante não tem indicação contrária, ela pode e deve ter uma vida sexual de forma natural e plena. Para que isso ocorra, é preciso que essa mulher juntamente com seu parceiro seja orientada de forma clara e concisa, pois o assunto sexualidade é permeado de mitos, tabus e valores que dificultam o trabalho sobre esse tema (VIANA et al., 2013). No contexto cultural, é possível observar que quando algum problema relacionado à sexualidade aflige as mulheres, elas não têm a quem recorrer e quando fazem isso a um profissional da saúde, estes mostram falta de interesse, deixando a sensação de que a sexualidade não faz parte da sua saúde (GOZZO et al., 2000).

No dia a dia, as consultas do pré-natal são bem sucintas, de forma mecânica e sem muito diálogo entre profissional e a paciente, estabelecendo assim, um relacionamento frio e vazio entre as partes. Por isso a importância de se trabalhar em grupo, pois se sabe que os grupos formados por meio das ações de educação em saúde têm como objetivo gerar reflexões acerca de temas do interesse de seus participantes, de modo a criar uma rede de apoio e de compartilhamento entre eles (GENIAKE et al., 2015). Dessa forma, torna-se relevante compreender como a mulher percebe sua sexualidade no período gestacional, para que estratégias aprimoradas de assistência à saúde possam ser sugeridas. O objetivo deste estudo foi analisar a percepção das gestantes atendidas em grupo em uma Unidade Básica de Saúde sobre sexualidade na gestação.

E, os objetivos específicos foram: Avaliar a influência da gestação no comportamento sexual da mulher. Descrever a percepção da mulher sobre o ato sexual na gestação. Identificar o papel do parceiro na sexualidade da mulher durante o período gestacional. Methods Tratou-se de uma pesquisa exploratória, descritiva com abordagem qualitativa (SILVA; MENEZES, 2005). O estudo foi realizado no município de Sinop, estado de Mato Grosso, na Unidade Básica de Saúde (UBS) Jardim Botânico, que conta com atendimento no mesmo espaço físico, a duas unidades, sendo a Equipe 1, que atende os bairros Jardim Paraíso, região norte do Jardim Botânico e Jardim Maringá e a Equipe 2 que atende os bairros Jardim Jacarandás e a região sul do Jardim Botânico. A UBS conta com um quadro de colaboradores formado por: dois médicos da família, duas enfermeiras, quatro técnicos de enfermagem, duas recepcionistas, uma secretária, dois dentistas, dois auxiliares de dentista, uma zeladora e oito Agentes Comunitários de Saúde (ACS). A unidade atende uma população que possui um poder socioeconômico mais elevado em relação às outras unidades do município, devido a sua localização geográfica, o que a difere das demais UBS do município, localizadas nas regiões mais periféricas.

A população de estudo foram as gestantes atendidas pelas duas equipes da UBS Jardim Botânico, sendo que a amostra foi constituída por gestantes que participavam do grupo educativo realizado na unidade. A unidade de saúde, contava no momento da coleta de dados com 23 gestantes em acompanhamento pré-natal, sendo que dessas 23 apenas 12 faziam parte do grupo de gestantes, pela disponibilidade de tempo e horário, sendo que estas participaram da palestra, primeira parte deste estudo. Para a coleta de dados, retornaram sete gestantes que aceitaram participar da pesquisa e que estiveram disponíveis no dia da coleta de dados. Para garantir o anonimato das participantes, estas foram identificadas por nomes de flores (Cravo, Bromélia, Hortência, Tulipa, Margarida, Rosa e Orquídea) escolhidas pelas pesquisadoras. Foram inclusas as gestantes que participaram do grupo, em qualquer faixa etária e idade gestacional, independente do número de filhos e situação conjugal, que participaram da palestra sobre sexualidade na gestação e que aceitaram participar da pesquisa. Foram exclusas aquelas que não quiseram participar da pesquisa ou que não compareceram na data de coleta dos dados por motivos afins. No primeiro encontro que marcou o retorno do grupo, foi realizada a palestra sobre “Sexualidade na Gestação”, abordando o tema na forma de roda de conversa, com a participação de 12 gestantes, as quais participam assiduamente do grupo. Dessas 12 gestantes, apenas sete se disponibilizaram para a próxima etapa, a entrevista gravada em áudio. A palestra foi realizada de maneira didática, em uma roda de conversa onde houve a participação direta das gestantes, que ficaram na liberdade de perguntas e respostas.

A pesquisadora ficou como ponte de conhecimento, sanando dúvidas, fazendo orientações, apresentando as mudanças físicas e psicológicas que ocorrem durante uma gestação. Foi explicado à elas a importância da sexualidade na vida da mulher, inclusive durante a gestação, orientado quanto a influência da sexualidade na saúde e bem estar da gestante e do companheiro, havendo dessa forma, promoção em saúde relacionada a sexualidade da gestante. Durante a palestra, as gestantes demonstraram muito interesse e a participação das mesmas foi satisfatória, havendo uma troca de conhecimentos e experiências de valor imensurável para o trabalho. No encontro seguinte, foram realizadas as entrevistas gravadas em áudio, utilizando-se o aparelho celular, de forma particular e reservada, na própria unidade, onde se fez uso de um roteiro contendo cinco perguntas norteadoras relacionadas à sexualidade na gestação. As perguntas foram feitas e as participantes ficaram na liberdade das respostas, não havendo interferência do entrevistador quanto ao conteúdo das falas, que posteriormente foram transcritas na íntegra e classificadas em categorias para melhor desenvolvimento da análise de conteúdo.

Os dados obtidos na entrevista e transcritos na íntegra foram analisados baseados na análise de conteúdo (MINAYO, 2010). No presente estudo foi escolhida a modalidade de categorização não-apriorística, pois as categorias surgiram do contexto das respostas obtidas na entrevista, ou seja, não se tinha categorias elencadas antes da coleta de dados. Este estudo recebeu aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Júlio Muller, número 1.521.567. Cada gestante participante da pesquisa assinou o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Results and discussion Por meio da roda de conversa durante a execução da palestra, as gestantes se sentiram à vontade para compartilhar suas vivências, anseios, medos, angústias e curiosidades em relação ao tema sexualidade possibilitando a reflexão e troca de saberes e experiências. Diante das falas, foram elaboradas as seguintes cinco categorias de análise, sendo estas discutidas na sequência do estudo: • Desconfortos físicos ocasionaram mudanças negativas nas relações sexuais. • Convivendo de forma positiva com as mudanças físicas ocorridas na gestação. • Mudanças e adequações sexuais durante a gestação. • Sentimentos de medo e culpa em relação ao bebê. • Sensação de dor durante o ato sexual.

MUDANÇAS NO DESEJO SEXUAL

Esta categoria apresenta excertos das falas das participantes, onde elas expressam que os desconfortos causados naturalmente durante a fase gestacional interferem diretamente em seu desempenho sexual. Uma alteração comum na gestação, o nível de interesse pela relação sexual por parte da gestante pode sofrer alterações ao longo da gestação por diferentes fatores como o aumento da circunferência abdominal, o cansaço físico e a sensibilidade mamária (MONTENEGRO; REZENDE FILHO, 2013) apontados por uma das gestantes como o fator responsável pela diminuição da frequência de relações sexuais na semana, como a mesma relata: “Hoje pelo cansaço né, diminuiu um pouco, pra duas vezes na semana, eu atribuo essa diminuição ao cansaço físico”.(Cravo) A sensação de cansaço físico, a fadiga e a sonolência são características do período gravídico pelo fato da gestação modificar o organismo materno e nele interferir na bioquímica e anatomia de todos seus sistemas, podendo produzir sintomas, que embora, sejam fisiológicos, são por vezes desagradáveis à mulher, como afirmam Chaves Netto e Sá (2007). Essas manifestações se relacionam com a indisposição também para o ato sexual, que precisa ser motivado por estímulos agradáveis, sabe-se que experiências sexuais positivas facilitam a resposta sexual da mulher, a relação da mesma com seu parceiro e com ela mesma e dessa forma melhoram a sua resposta sexual (MONTENEGRO; REZENDE FILHO, 2013).

No entanto, essa consciência não é disseminada entre as mulheres, ao passo que se sentem culpadas por não expressarem o desejo sexual nesse período: “Eu não sei o porquê disso, porque eu não faço nada, eu não canso, eu acho que é da gravidez mesmo, tenho muito sono, corpo cansado mesmo.” (Margarida) “As náuseas são manifestações comuns na gestação, decorrentes da presença de gonadotrofina coriônica humana (hCG) sintetizada pela placenta na circulação materna” (CHAVES NETTO; SÁ, 2007, p.144).Na presença de sensações que causam desconforto, a libido tende a diminuir, fazendo com que haja uma diminuição tanto na frequência quanto na qualidade das relações sexuais, que pode não ser entendido completamente pelo parceiro, como se percebe: [...]é por falta de vontade mesmo, indisposição, enjoo, eu não tenho muita vontade não, diminuiu pra umas duas vezes na semana, ainda se ele insistir muito.” (Orquídea) O aumento do tamanho do abdome para abrigar a criança gerada pode chegar em média a 40 cm de altura uterina, a depender de diversos fatores, entre os quais se encontram o número de fetos, o tecido adiposo, o volume de líquido amniótico. O útero pode ser palpado a partir de 12 semanas, no abdome, o fundo uterino mostra-se gradativamente mais alto à medida que a gestação avança, distanciando-se da sínfise púbica (MONTENEGRO; REZENDE FILHO; 2013). Da mesma forma, as mamas se tornam mais sensíveis, devido ao aumento de seu volume a partir de 5-6 semanas de gestação, aumento esse que ocorre devido a hiperplasia dos elementos glandulares

DESCONFORTOS FÍSICOS OCASIONARAM

Com proliferação dos canais galactóforos e ramificação dos ductos mamários (CHAVES NETTO; SÁ, 2007). Esses fatores podem alterar a autoimagem da mulher e favorecer o surgimento de mudanças na rotina sexual, como uma das entrevistadas relata: “Eu acho que é porque eu não tô me soltando mesmo por causa desses desconfortos, também as mudanças me deixam sem vontade, a barriga e os peitos cresceram.” (Orquídea) Diante das falas, foi possível identificar que algumas participantes da pesquisa referiram diminuição no desejo sexual, associados aos desconfortos físicos próprios da gestação como cansaço físico, fadiga, sonolência, náuseas, edema, aumento do volume abdominal e sensibilidade da mama durante essa fase. Canella(2000), afirmou em seu estudo que o interesse sexual na gravidez tem grande variação, desde a rejeição voluntária até o aumento do desejo sexual. Durante a gestação, a disposição e o bem-estar da gestante estão diretamente ligados com a vida sexual ativa durante essa fase, sendo que fatores como sonolência, tristeza, culpa e medo em relação ao sexo, correlacionam-se negativamente na vida sexual do casal (BARBOSA, 2011). Para Montenegro e Rezende Filho (2013), a freqüência nas relações sexuais durante a gravidez é um fator que não expressa necessariamente qualidade, ou seja, não é o número de vezes que a mulher tem relação sexual que importa, mas se essas relações são satisfatórias. Foi possível através deste estudo, verificar que os desconfortos causados pela gestação têm grande influência sobre a sexualidade das participantes, onde os relatos verbais e as expressões faciais e corporais sugeriram tal fato.

Os desconfortos mais citados foram fadiga, cansaço, dores e maior sensibilidade nos seios e vagina, o que leva algumas participantes a evitarem a relação sexual a fim de minimizar tais desconfortos, o que pode gerar confrontos entre o casal, abrindo oportunidades para a infidelidade, colocando em risco a saúde física e emocional da família. A sexualidade da mulher na gravidez dependerá, entre outros motivos, de como ela se percebe nessa fase. No grupo educativo foi possível explicar sobre essas mudanças físicas, o porquê de cada mudança, foi orientado como amenizar esses desconfortos e ainda as participantes foram encorajadas a estimular o diálogo entre o casal para que os companheiros tomem conhecimento dessas modificações e possam dessa maneira contribuir de maneira positiva para com estas mulheres estabelecendo uma relação de respeito e parceria.

CONVIVENDO DE MANEIRA POSITIVA COM AS MUDANÇAS FÍSICAS OCORRIDAS NA GESTAÇÃO

Contrapondo-se aos dados da seção anterior, esta categoria aponta as falas onde algumas mulheres afirmam que as mudanças físicas da gestação têm contribuindo de maneira positiva para o aumento do desejo sexual e ainda demonstra que uma mulher refere estar se sentindo mais bonita nessa fase, que as mudanças físicas têm contribuído para esse efeito, sendo que duas mulheres apontaram que o fato de estarem grávidas aumentou seu desempenho sexual. Ao longo da gravidez, as mulheres passam por alterações em sua imagem corporal e psíquica e muitas sentem um aumento no desejo sexual, consequente da ideia de maior responsabilidade e sensação de maior feminilidade (REISDOFER, 2010). Essa percepção positiva sobre as mudanças corporais pode ser observada em uma participante que referiu estar gostando e se realizando com as mudanças físicas ocorridas na gestação, enquanto falava sobre esse assunto, ela sorria e acariciava a barriga, o que demonstra que nem todas as gestantes referem essas mudanças fisiológicas da gestação como um fator negativo na sexualidade da mulher: “[...]quanto às mudanças do meu corpo não me incomoda nada, estamos curtindo bem esse momento.” (Cravo) Sueiro, Gayoso e Durval (1998) afirmam que a frequência sexual assim como o desejo sexual não são afetados pela gestação, que a mulher pode estar grávida e ainda assim vivenciar sua feminilidade e sexualidade normalmente durante este período.

Outra participante relatou que teve sua satisfação sexual potencializada, sendo possível observar durante essa fala, expressão de felicidade em suas palavras, sempre sorrindo e acariciando a barriga. O aumento da libido durante a gestação pode ser explicado pelas influências psicológicas e socioculturais somadas a questões orgânicas, o que pode ser de grande importância para enriquecer a relação (LECH; MARTINS; 2003). Esse fato fica explícito na fala: “Era bom, eu gozava em todas as relações, hoje eu gozo também, mas hoje tá mais intensa, tenho mais vontade, em todas as gestações eu fiquei assim, mais fogosa (risos).” (Bromélia) De acordo com Viana et al.(2013), a mulher moderna torna-se mais consciente sobre seu papel reprodutivo, começando a lidar melhor com sua sexualidade, percebendo que o fato de estar gestante não a exime do papel de mulher, apenas estará agregando mais uma função entre tantas outras que a mulher consegue desempenhar. Camacho, Vargens e Progianti (2010), têm demonstrado em sua pesquisa que é possível observar melhora no relacionamento do casal durante a gestação, uma vez que a mulher pode desenvolver sentimentos de feminilidade aguçada. Uma participante relatou que a gravidez melhora seu desempenho sexual, uma vez que ela percebeu que durante essa fase ela se sente mais atraente e seu desejo sexual aumenta como o trecho da fala demonstra: “Digamos que era uma ou duas vezes na semana. Eu sinto mais vontade agora, aumentou para umas três a quatro vezes por semana.” (Bromélia) Este estudo demonstrou que a gravidez é um marco na vida da mulher, e cada uma reage de forma única em relação a essa fase, assim como existem mulheres que durante a gestação passam por experiências traumáticas, em contrapartida existem mulheres que experimentam as mais sublimes sensações, este estudo mostra isso, das sete participantes da pesquisa, duas mostraram que é possível se sentir mais bonita, mais desejada, mais atraente fisicamente nessa fase.

MUDANÇAS E ADEQUAÇÕES SEXUAIS DURANTE A GESTAÇÃO

Esta categoria apresenta as mulheres que relatam sobre as práticas sexuais utilizadas na gestação, o que modificaram nesse período as adequações que elas têm adotado para proporcionar melhoria em seu desempenho sexual. A gestação por si só, traz modificações corporais para a mulher que proporcionam, muitas vezes, vergonha de mostrar o corpo ao companheiro, o que pode provocar timidez e falta de criatividade para incrementar as práticas sexuais, se fazendo necessário que os casais modifiquem as posições a que estão acostumados, a fim de tornar esse momento mais confortável para os dois e minimizar os desconfortos na mulher. Martins, Lima e Almeida (2011) ressaltam que o período de gravidez é uma fase que pede nova adaptação materna e paterna para as práticas sexuais, é um momento propício a problemas com impactos negativos na saúde física e psicológica da gestante e do seu companheiro, caso esse casal não busque essas adaptações. Foi possível perceber que algumas mulheres mudaram suas práticas sexuais, devido ao desconforto na posição, outras relataram que foi devido ao medo de machucar o bebê, ou ainda por falta de ânimo, diminuindo dessa forma suas práticas sexuais, como as falas demonstram: “Fazia tudo; oral, vaginal e anal (risos), hoje eu não faço anal, porque pra mim ficou desconfortável agora.” (Bromélia) “Era normal, tipo vaginal e oral, o sexo anal eu nunca fiz.

Hoje é só vaginal nem oral quero mais. Meu marido ta de boa, ele ta entendendo que é por causa da gravidez.” (Margarida) Algumas permaneceram com as práticas sexuais que mantinham antes da gestação, alegando não ter percebido nenhuma diferença no ato, o que sugere que as práticas sexuais durante a gestação tanto podem ser ajustadas quanto não sofrerem nenhuma alteração. “Toda! Oral, vaginal e anal e hoje eu continuo com tudo, só que temos mais cuidado.” (Rosa) “Vaginal mesmo e hoje continua só essa mesmo.” (Orquídea) Montenegro e Rezende (2013), afirmam que a atividade sexual durante a gravidez pode ir além do coito vaginal, incluindo nessas práticas a masturbação, massagem, sexo oral, preliminares, carícias mútuas, beijo, fantasias, uso de brinquedos sexuais e abraços, pois as necessidades sexuais do casal podem ser supridas de muitas maneiras.

No entanto, nenhuma das entrevistadas relatou esse tipo de adaptação. Viana et al.(2013), relatam que quando a relação sexual é prazerosa, acontecem várias reações corporais e psicológicas que contribuem para uma vida mais tranquila e feliz, trazendo benefícios para a gravidez em si e para o convívio harmonioso do casal. Pauleta, Pereira e Graça (2010) entrevistaram 188 mulheres, constatando variações dos tipos de atividades sexuais ao longo da gestação: sexo vaginal, oral, anal e masturbação foram realizadas por 98,3%, 38,2%, 6,6% e 20,4% das mulheres entrevistadas, respectivamente. Foi possível observar diante desses dados que durante a gestação, as mulheres se adéquam em relação às práticas sexuais conforme as necessidades de mudanças. Devido às mudanças anatômicas, algumas práticas se tornam difíceis ou até mesmo inviáveis, bem como se faz necessária a inclusão de outras práticas, para que dessa maneira, o casal não perca a intimidade e ao mesmo tempo tenham um relacionamento íntimo prazeroso para os dois.

SENTIMENTOS DE MEDO E CULPA EM RELAÇÃO AO BEBÊ

Neste item, apresentam-se as angústias vivenciadas pelo casal em relação ao bebê, demonstrando o medo de machucar o bebê durante o ato sexual e medo de estar abusando de alguma forma da criança que ainda está na barriga da mãe. Por esse motivo, algumas mulheres e seus parceiros referiram insegurança para o ato sexual durante o período gestacional. Durante a gestação, muitos casais passam a acreditar que o exercício da sexualidade não condiz com a maternidade, existindo também situações nas quais o parceiro passa a confundir maternidade com santidade, eliminando a sexualidade da vida do casal, passando a acreditar que o sexo nessa fase não é um ato puro, tais pensamentos podem afetar drasticamente o relacionamento do casal, como se percebe na fala: “[...] é que quando eu to gozando, a neném fica dura, ela contrai demais, daí a gente para e conversa com a barriga e ele fica com sentimento de culpa, como se ele tivesse agredindo a filha, por isso, às vezes a gente tem que parar a relação sexual porque ele não consegue continuar por culpa.” (Tulipa) Zampieri (2007) comenta que na Antiguidade, a gravidez era extremamente valorizada em razão de sua finalidade que era a de perpetuação da espécie humana, tanto que em algumas culturas as mulheres grávidas eram colocadas acima da humanidade vulgar, por terem sido escolhidas por Deus para dar continuidade à vida humana. Dessa forma, fica fácil compreender o porquê de alguns companheiros enxergarem suas mulheres como um objeto intocável nesse momento, há estudos que comprovam que na fase gestacional, os homens não têm alterações orgânicas, mas podem ser afetados por questões emocionais, tais como a ansiedade em relação ao parto, à criação do filho, à responsabilidade de ser pai (ARAÚJO et al., 2012). Montenegro e Rezende Filho (2013) mostram como fator de diminuição do interesse sexual do parceiro pela gestante, a consciência da presença do bebê, de seus movimentos fetais, o volume abdominal e o receio de que a relação sexual possa maltratá-lo.

Para Gomes (2009), as variações no desejo sexual acontecem em decorrência de desconfortos, além de temor de prejudicar o bebê, de provocar um aborto ou desencadear um parto prematuro que também se constitui como importante agravante na sexualidade masculina ou por motivos religiosos e culturais no qual acreditam que a prática sexual no período gestacional é um ato impuro, como relata uma gestante: “Hoje ta menos, porque a bebê se incomoda bastante, fica agitada durante a relação aí ele tem medo de machucar ela.” (Hortência) “[...] mas ele entende, ele tem medo de machucar o bebê, mas a gente já conversou sobre isso.” (Orquídea) Ballone (2002) reforça dizendo que o temor de prejudicar o filho no momento da penetração vaginal, de provocar um aborto ou desencadear um parto prematuro é também um importantíssimo agravante da sexualidade masculina, este temor no final da gestação leva o homem a sugerir posições alternativas de coito, que podem não ser tão prazerosas para a mulher, restando à ela ser empoderada o suficiente para aceitar ou não essa posição sugerida de maneira a tornar o momento mais agradável, prazeroso e menos doloroso. Montenegro e Rezende(2013) apontam como determinantes de uma diminuição do interesse das mulheres por sexo ao longo da gestação, os sentimentos de perda de atratividade em função das alterações na imagem corporal e o medo de fazer mal ao feto, corroborado na fala a seguir: “Ah, diminuiu porque fica mais difícil porque a gente não pode abusar, junta o desconforto dele com o meu, o medo de machucar a bebê, daí não tem como se soltar, a gente fica bem apagada.” (Hortência) Do ponto de vista emocional, a mulher pode não se sentir atraente ou feminina, diminuindo com isto sua autoestima o que pode ser extremamente conflitante estar num momento considerado divino e, ao mesmo tempo, não estar gostando de si mesma e tendo desejos sexuais (ARAÚJO et al., 2012).

Um estudo sobre o corpo e a sexualidade no puerpério mostrou que mulheres quando praticavam o ato sexual com o companheiro, se sentiam envergonhadas, preocupadas e incomodadas com a presença do bebê. Desta forma, vêem o sexo como algo pertencente à fase adulta da vida e colocam a criança no lugar do sagrado e da pureza, sendo estes valores de cunho cultural (GOMES, 2009). O estudo mostrou que os problemas relacionados à gestação, tais como desconfortos, medo de machucar o bebê durante o ato sexual podem influenciar diretamente no bem estar sexual do casal, tornando assim uma relação sexual precária e sem atrativos.

SENSAÇÃO DE DOR DURANTE O ATO SEXUAL

Nesta categoria, foi possível observar e presenciar o sentimento de tristeza e de submissão de algumas participantes em relação à dor e a sensibilidade durante as relações sexuais. Durante a gestação, o corpo da mulher fica mais sensível, o que pode tornar o ato sexual um momento de tortura para ela. Neste estudo foi retratada a submissão de mulheres aos seus companheiros, que mesmo sentindo dores e desconfortos se submetem a manter uma relação regada à dor para que seja cumprida a obrigação de esposa, mostrando que para muitas mulheres o ato sexual em si é torturante e o quão doloroso pode se tornar o momento que era para ser prazeroso. Uma participante, enquanto falava sobre esse assunto, franzia a testa ao mencionar a dor, esquivava o corpo como se estivesse tentando se afastar de alguém e foi possível sentir o desconforto e a angústia com que ela tratou do assunto, mesmo não verbalizando a dor intensa, ao dizer a seguinte afirmação: “Agora no finalzinho diminuiu bastante porque dói, dá desconforto, mas no começo era normal [...] a gente fica sem jeito, a posição fica ruim, a barriga cresce e fica desajeitado pra fazer alguma coisa. Ainda to aguentando fazer, mas é desconfortável.” (Tulipa) O desconforto e a dor também foram relatados por outra participante, mas suas expressões faciais e corporais não se alteraram, demonstrando tranquilidade e sempre acariciando a barriga. “[...] era um pouco melhor, eu sentia mais prazer, hoje eu sinto bem menos. A gente fica mais sensível, assim, o corpo fica com umas partes mais sensíveis, tenho mais sensibilidade, machuca um pouco a penetração, fico inchada a vagina e dói, fica sensível ao toque.” (Cravo) A falta de relaxamento para a penetração, advinda do medo de machucar o bebê, também se mostrou como um fator causal para a dor durante o ato sexual: “Agora deu uma diminuída porque tenho desconforto durante a penetração, porque dói, eu tenho medo de machucar a menina.” (Rosa) O estudo evidenciou que a dor pode fazer parte do cotidiano dessas mulheres e que o momento da relação sexual talvez seja repleto de medos e angústias, o que poderia estar potencializando essa dor. Observa-se que a mulher, juntamente com seu corpo, suas ideias, seus desejos, valores e sentimentos foram tomados e ainda o são, como posse do homem, deixando a impressão de que o papel da mulher é satisfazer o prazer masculino, assim, o quesito sexualidade e práticas sexuais impõem ao homem o papel do sujeito/ativo e à mulher o de objeto/passivo (VARGAS; RUSSO; HEILBORN, 2010; ALBUQUERQUE et al. 2015). Foucault (1994) afirma que a mulher, pela sua condição desigual em relação ao homem, viveu por muitos anos sob a sua tutela, em primeira instância do pai e em segunda do marido, com sua sexualidade normatizada pelos padrões cristãos, legitimada pela instituição do casamento e pelo cumprimento da função reprodutora.

A sexualidade remete ao modo pelo qual a pessoa expressa sua identidade sexual, nesse sentido, ressalta-se a feminilidade e a masculinidade como expressão de comportamento, definindo sócio culturalmente as características como força, agressividade, poder, lógica e independência próprias do sexo masculino e a fraqueza, submissão, dependência e emoção é o que se espera sócio culturalmente do sexo feminino (TRINDADE; FERREIRA, 2008). Esse fato se torna evidente neste estudo, em que as mulheres cedem às relações sexuais mesmo sentindo-se incomodadas e com imensa dor para simplesmente satisfazer os desejos dos companheiros, mesmo que essa atitude infrinja seus direitos e vontades, o que nos faz refletir no que o autor acima citado refere.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A gestação é uma fase de intensas mudanças na vida da mulher, mudanças estas que trazem consigo medo, ansiedade e insegurança para mulher ao mesmo tempo em que proporcionam a alegria de gerar um filho, o prazer e satisfação de gerar uma vida. Essas mudanças se tornam menos traumáticas sobre a mulher grávida, quando a mesma tem apoio durante essa fase, seja o apoio da família, do companheiro e dos profissionais de saúde, uma vez que durante um longo período, esta mulher terá o acompanhamento constante desses profissionais. O presente estudo demonstrou que as mudanças físicas ocorridas na gestação trazem consigo influência direta tanto positivas quanto negativas sobre a sexualidade da mulher, ao passo que algumas participantes referiram diminuição na frequência sexual devido ao cansaço físico, dor mamária, fadiga, sonolência e aumento do volume abdominal. Em contrapartida, outras participantes relataram que a gravidez oportunizou mais disposição para o sexo, uma vez que as mesmas afirmaram se sentir mais dispostas ao relacionamento sexual, isso demonstra que cada mulher responde de maneira única, evidenciando que é uma forma individual de ver e vivenciar a sexualidade na gestação. O estudo revelou ainda que alguns casais se adaptaram de maneira consensual às práticas sexuais durante a gestação, conforme a necessidade da gestante, foram incrementando o relacionamento sexual modificando algumas posições, incluindo posições que diminuíssem os desconfortos para a gestante e excluindo outras que não vinham sendo interessantes à condição de gestante.

Foi possível observar que alguns casais tiveram dificuldades em lidar com o fato de ter que conciliar a vida sexual ativa com o desenvolvimento da gravidez, de unir em uma mesma pessoa, a mulher que sente o desejo sexual, mas que ao mesmo tempo abriga em seu corpo uma nova vida, indefesa, que sob o inconsciente do casal, pensam que o ato sexual pode trazer de alguma forma um malefício a essa criança, como abusos ou ferimentos. Observou-se também que algumas participantes vivem a submissão ao ato sexual, que apesar das dores e desconfortos pertinentes ao período gestacional, se submetem à relação sexual dolorida e desprovida de prazer, apenas para satisfazer o companheiro, cumprindo a obrigação de esposa e dessa maneira, garantir a fidelidade do companheiro, mesmo que à custa de dor e falta de prazer. A sexualidade ainda é um assunto tratado de maneira superficial, rodeado por mitos e tabus, ainda mais quando se fala em sexualidade da gestante, talvez por isso a dificuldade em encontrar trabalhos publicados que tratassem do assunto de maneira mais profunda. Dessa forma, indicamos este e outros fatores como limitadores do estudo, por exemplo, dificuldade na disponibilidade de algumas participantes para participar da entrevista, a morosidade em relação a apreciação ética, além do que o tema sexualidade na gestação ainda é um assunto pouco abordado, o que dificultou uma variedade maior na revisão de literatura. No entanto, como toda pesquisa, esta também serviu como uma abertura de caminhos para novos estudos, em que se sugere maior aprofundamento no tema que se refere ao relato de dor e submissão ao ato sexual durante a gestação, pois como mostrado no estudo, foi relatado por todas as participantes da pesquisa, a submissão à dor, ao ato sexual desconfortável para apenas cumprir a obrigação do papel de esposa. 

Cleo Cordeiro

cleoejunior@hotmail.com

Por: Cleo Cordeiro