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Especial | ARTIGOS COLUNISTAS

REFLEXÃO

Nós vivemos em uma sociedade violenta, corrupta e intolerante

Padre Deusdédit Almeida lamenta consumismo exacerbado e pede mais atenção ao aniversariante Jesus

(Foto: Alair Ribeiro/MidiaNews)

Uma das vozes mais influentes da Igreja Católica em Cuiabá, o padre Deusdédit Monge de Almeida, que está à frente da Paróquia Coração Imaculado de Maria, no bairro CPA IV, pede que os fiéis não se esqueçam do verdadeiro homenageado neste Natal - Jesus Cristo.

Com um discurso ao mesmo tempo religioso e politizado, o padre pede mais tolerância às pessoas e uma reflexão sobre violência e corrupção.

"Nós estamos vivendo numa sociedade violenta, que mata. A corrupção, por exemplo, é sinal de morte", afirmou o religioso, em entrevista ao MidiaNews.

Há 11 anos à frente da paróquia, o padre ressaltou a importância de todas as igrejas cristãs trabalharem juntas contra os males da Terra.

Ele ainda falou sobre a importância do pontificado do papa Francisco para o mundo.

Confira os principais trechos da entrevista do padre Deusdédit: 

 

MidiaNews – O Natal é um bom momento para as pessoas refletirem sobre seu comportamento?

Padre Deusdédit – Natal é a vida que nasce, é um convite para uma reflexão de vida, para o homem trilhar o caminho do bem, o caminho da honestidade, para suas relações profissionais e sociais. É um convite para reavivar a ternura, a compreensão mútua, o respeito, a tolerância, que é um dos grandes temas que estamos levantando hoje no mundo - e o papa Francisco vem insistindo nessa linha. Há ainda um crescimento de intolerâncias em diversos pontos do planeta, devido às crenças diferentes. Então nos precisamos voltar a cultivar o espírito de tolerância, do respeito nas convicções de cada pessoa, da sua visão de Deus, da sua visão de mundo, da sua visão política.

A gente precisa voltar a conviver na pluralidade. E Natal também é um convite para gente se comprometer com essas grandes causas emergenciais da humanidade, que é a causa da paz, da tolerância, da convivência pacífica, da justiça social. Porque ultimamente houve um estudo, que apontou para uma profunda desigualdade que tem crescido e isso fere um pouco o espírito da solidariedade do Natal.

 

MidiaNews – O senhor acha, então, que o mundo está mais intolerante?

Padre Deusdédit – Já estivemos melhores nesse ponto, mas devido às convicções religiosas, pontos de vistas diferentes, ideologias, surgem então essas intolerâncias. Eu vejo que o ser humano tem direito de fazer suas escolhas religiosas. E a melhor escolha que o ser humano faz é aquela escolha que o torna um ser humano melhor. Então uma religião que não torna o ser humano fraterno, respeitoso e amoroso, carinhoso com seu semelhante, não é uma religião que vem de Deus. A nossa religião tem que ter como espelho Jesus, que veio prestigiar o homem, valorizar o ser humano. Acima das ideologias da época, ele queria a vida das pessoas em primeiro lugar, não importando a crença, nem a denominação religiosa.

 

MidiaNews – Mais um ano termina e a violência e a intolerância parecem não dar trégua no Brasil. A que o senhor atribui isso?

Padre Deusdédit – Do ponto de vista cristão, existe o mistério do pecado, porque desde que o pecado entrou no mundo existem esses desajustes no equilíbrio e no ser humano. Então, em grande parte, é consequência, é o mal agindo no mundo, que é o pecado. Ele prejudica a nossa vida, nossas relações, nossa convivência, e o pecado age exatamente no desequilíbrio das pessoas, na intolerância, no descontrole, nas paixões desordenadas.

Eu vejo aí o mistério do mal na raiz de todos estes problemas. Agora o contexto social também influencia. Nós estamos vivendo numa sociedade violenta, que mata. A corrupção, por exemplo, é sinal de morte. Você desvia dinheiro que deveria ir para a Saúde. E isso hoje está matando as pessoas, porque esse dinheiro não foi bem aplicado ou foi desviado.

Então eu vejo o pecado como causa pessoal ou estrutural. Nenhuma pessoa nasce violenta. A violência é estrutural. Ela nasce pacífica e se torna violenta dentro do contexto de sua convivência. A gente precisa ainda trabalhar a linha da convivência, da reconciliação, do perdão entre as pessoas.

O perdão é o que zera o mal. É a uma compensação que você dá para si mesmo, porque você terá uma vida melhor e fará com que o outro tenha uma vida melhor. Eu vejo que a sociedade está muito vingativa, de “bateu levou”. Acho que esse clima de vingança não ajuda a construir uma sociedade fraterna, solidária e tolerante.

 

MidiaNews – O senhor avalia que isso seja o Diabo influenciando as pessoas?

Padre Deusdédit – O demônio às vezes mete “o rabo” nas nossas vidas, nas nossas famílias. E isso é o demônio da mentira, do ódio, do egoísmo, das paixões desordenadas, da corrupção, do adultério. São esses demônios a que estou me referindo. O ser humano está influenciado. Já dizia um grande teólogo que os anjos nunca caíram. O demônio caiu definitivamente pelo pecado. E o homem é uma mistura de anjos e demônios.

O apóstolo Paulo falava: "Eu quero o bem, desejo o bem, mas acabo fazendo o mal que não quero". Então muitas coisas estão na raiz que vêm do pecado mesmo, que é o que leva a criar esse desajuste social e familiar. Por isso que eu vejo, sem a presença de Deus na vida da pessoa, sem um encontro com Ele, é que acontece no Natal. Às vezes você pensa em tudo, na comida, nas festas, nos presentes, mas esquece daquilo que é essencial e básico, que é Jesus, que nasceu e viveu no meio de nós. As pessoas fazem a festa e esquecem do aniversariante, que é Jesus.

 

MidiaNews – O tema da Campanha da Fraternidade de 2018 é a superação da violência pela consciência de que somos todos irmãos. Essa consciência é capaz de reduzir os episódios de intolerância?

Padre Deusdédit – É um dos assuntos emergenciais de que falei, com o qual nós precisamos nos comprometer. Afinal não há nenhum ser humano que não se sinta bem quando ao seu redor reina a paz, harmonia, fraternidade. E essa busca é um desafio do Evangelho e de toda a sociedade. Todo mundo quer viver em paz, mas vejo que nós temos que ir nas causas da violência, como já citei aqui.

Então é preciso trabalhar as causas, como políticas públicas, a educação, a saúde, dizer não à corrupção. Porque isso afeta a violência. O mau exemplo vem de cima e aqui embaixo as pessoas pensam: “Todo mundo está metendo a mão no dinheiro público. Então aqui também podemos começar a agir assim”. Nós precisamos eliminar as causas, mas parece que estamos “secando gelo”. É importante termos esse comprometimento com a paz, que é uma das bandeiras do Natal.

 

MidiaNews – O senhor acha que, se as pessoas fossem mais tementes a Deus, elas seriam menos corruptas?

Padre Deusdédit – Creio que sim. A fé leva uma pessoa a ser do bem e honesta, ser um bom cristão na sociedade. Essa é a meta na sociedade. Então acredito que, na medida em que as pessoas vão se envolvendo com os valores cristãos, ela vai vivendo uma vida mais limpa, ética no seu relacionamento. Acho que ainda falta muito disso. A gente precisa buscar também na fonte da fé, que é Jesus, uma vida mais limpa.

 

MidiaNews – O Natal é um momento de intenso consumo. Essa obsessão por coisas materiais não fere o espírito desta época do ano?

Padre Deusdédit – É preciso entender o que significa consumismo. E aqui nós consideramos que é aquele consumo exacerbado que ofusca o brilho do Natal, que é Jesus Cristo.

Aí tem o outro lado de movimento da economia, que gera emprego e renda. E isso é um elemento positivo. Mas o que nós questionamos é esse consumismo exacerbado, compulsivo, que leva a pessoa a viver só de consumo. Então a pessoa acha que sem consumir ela não será feliz. E isso não é verdade. É importante saber que há tantas coisas no mundo das quais você não precisa para ser feliz. E quem dizia isso era o filósofo Sócrates, que é anterior a Cristo.

A gente precisa buscar a simplicidade. A felicidade está nas coisas simples. Temos que nos conformar com pouco e ter controle sobre o nosso consumo, sobretudo por causa do endividamento. Eu conheço pessoas que dizem ter 80 pares de sapato, mas será que vai usar tudo isso? Então isso para mim é consumismo. É a falsa necessidade de ter algo. Você coloca que precisa daquilo e na realidade não precisa.

Nós temos que fazer da festividade natalina uma confraternização com amigos, um momento para estar com a família, um momento de oração, de congraçamento. É isso que une as pessoas. Não é a troca de presentes, mas sim o congraçamento das pessoas.

 

MidiaNews – Muito tem se falado da perda do espaço do catolicismo no Brasil. Como o senhor enxerga esse fenômeno?

Padre Deusdédit – Nós não estamos fazendo um campeonato de igrejas - esse é o primeiro ponto. A nossa linha de trabalho é pregar o Evangelho e sempre através do diálogo ecumênico. Eu sempre costumo dizer que não são os fieis que saem da Igreja, mas sim os infiéis. Porque aquelas pessoas convictas e sólidas não abandonam. Quem deixa é aquele que não estava participando.

Nós temos um grande número de católicos que não vivem o catolicismo, não têm uma frequência religiosa. Estes são chamados católicos de nome ou de IBGE. E há os indiferentes a tudo. Hoje nos temos no Brasil cerca de 12 milhões de brasileiros indiferentes a tudo. Está crescendo o indiferentismo. Então eu diria que nós precisamos trabalhar essa causa, primeiro na linha da formação e da evangelização.

Outro questionamento que fica é: será que algumas seitas ocultas estão ocupando espaço que nós deixamos? Mas nós não estamos preocupados com aquele que busca uma igreja, porque graças a Deus as pessoas estão tendo uma igreja. Porque todas as igrejas irão ajudar as pessoas a ser um ser humano melhor. Eu sempre falo que a melhor religião é aquela que deixa o ser humano melhor. Então se ele esta sendo melhor lá, que Deus o ajude a ser um cidadão honesto, um bom pai de família. É nessa linha que temos que olhar.

Eu participo do Conselho de Igrejas Cristãs e lá nos buscamos essa aproximação, esse diálogo, para trabalharmos juntos. Porque aquilo que nos une - católicos e evangélicos - é infinitamente maior do que aquilo que nos separa. O que nos separa é coisa mínima. São pequenos símbolos. E não vamos renunciar a eles, mas podemos trabalhar juntos, porque o que nos une é maior. Pela paz, pela dignidade humana, pela tolerância religiosa, combatendo a violência. E é nessas bandeiras emergenciais de solidariedade pelo planeta, que nós devemos estar juntos, e não separados.

O sonho de Deus é que todos sejamos um e convivamos em uma comunidade de respeito, ser uma unidade na adversidade, sem perder a sua identidade. É isso que eu prego sempre. Nós temos a nossa identidade católica e vamos tê-la sempre, mas é possível construir comunhão e laços de fraternidade com quem pensa diferente.

 

MidiaNews – Neste ano, comemoraram-se 500 anos da Reforma Protestante. Que avaliação o senhor faz deste episódio que dividiu a Igreja Católica?

Padre Deusdédit – Nós saímos do conflito para a comunhão, e esquecemos o que nos une. Então, hoje estamos celebrando a comunhão a partir daquilo que nos une com as igrejas históricas. Temos que trabalhar o chão da união e aproveitar que é isso que Deus quer para todos nós.

MidiaNews – Como o senhor vê, neste momento, o mercado dos milagres? Em Cuiabá, há igrejas aceitando dízimos no cartão de crédito e débito.

Padre Deusdédit – Aí não são mais as igrejas históricas, porque estas são muitos sérias. Elas têm conteúdo, corpo de doutrinas. Agora estão surgindo novas seitas. Nos bairros, todo dia surge uma nova igreja. E isso aí é uma oferta de "produto da fé". E as pessoas que estão no desespero e angustiadas buscam. São religiões utilitárias. Eles usam a religião para uma finalidade que não é.

Nós, na igreja, vemos as pessoas dizendo: “Vamos fazer a missa da cura e libertação”. Mas toda missa é de cura e libertação - não é só aquela. Qualquer oração que você faz é de cura. Eu vejo que Jesus questionou duramente a exploração econômica da fé. Ele expulsou os vendilhões do templo. Isso é uma contradição, é contra o Evangelho. E é Jesus quem fala isso.

 

MidiaNews –  E os padres celebridades, como Marcelo Rossi e Fábio de Melo, são importantes para atrair um público mais jovem para a Igreja Católica?

Padre Deusdédit – Eles têm importância sim, porque eles trabalham na mídia. E nós precisamos das mídias para evangelizar. Temos que usar essa força incrível, que são as mídias sociais e a música. E com esse espírito, vamos conseguir muitos seguidores.

Mas o importante é usar a força que eles têm, que é o carisma em prol da sociedade. Então, enquanto a gente vir pessoas entrando assim com esse dom e carisma, louvado seja Deus. Nós temos que agradecer a Deus por essas pessoas.

 

MidiaNews –  O papa Francisco completa, em 2018, cinco anos de pontificado. Como o senhor vê este período da Igreja?

Padre Deusdédit – Eu digo que quem critica o papa Francisco está contra o Evangelho, porque ele veio lembrar o Evangelho, só isso. Qual foi a opção de Jesus? Ajudar os rejeitados do mundo. Jesus veio para servir, ser misericordioso com os pecadores e promover a vida. E o papa veio lembrar isso. Então não há nada de novo no que ele está falando. Não se pode afastar das pessoas humildes. São Vicente já dizia que, quando o pobre bateu em sua porta, ele veio testar a sua caridade. Eles se apresentam para você, como uma tábua de salvação para a sua vida. O papa Francisco é um homem admirável. Ele veio para oxigenar nossa igreja, com essas causas emergenciais que ele assumiu. Muitas pessoas passaram a admirá-lo por causa disso. E, claro, também sofre muitos questionamentos, dentro da igreja, inclusive. Mas ele é um homem muito ortodoxo e eu o vejo como uma grande benção que o espirito santo trouxe para a nossa igreja. As pessoas precisam entender que no momento ele é o mensageiro de Deus para nós. Depois virão outros.

 

MidiaNews –  Que mensagem o senhor deixa para os fieis neste Natal e Ano Novo?

Padre Deusdédit – Eu quero dizer que essa ternura do Natal desperta sentimentos adormecidos, de amizade, de confraternização, de encontro com as pessoas, de perdão, de reconciliação, ternura e construir a cultura do encontro. Isso que irá fazer a diferença no mundo.

E quero que neste Natal as pessoas também se aproximem de Deus, por que a causa dos males está no afastamento Dele. E eu quero pedir a Deus que ele abençoe o ano de 2018, porque é o ano da lendária e tricentenária Cuiabá, que realmente nossas famílias possam ser abençoadas. 

Por: Midia News