Doença estranha

Covid: Num dia, o paciente está bem; no outro, ele está gravíssimo, diz médico

Infectologista afirma que mortes estão caindo, mas que não é o momento de relaxar nos cuidados

Coronavírus

28/09/2020 às 06:55

O infectologista Francisco Kennedy Faleiros de Azevedo, professor de Medicina na UFMT e Univag, atua na linha de frente no combate à Covid, tanto no Pronto Socorro de Várzea Grande, quanto no Complexo Hospitalar de Cuiabá.

 

Com a vivência de quem está no dia a dia tratando doentes, o médico se diz a favor do tratamento precoce contra a doença, com uso de Azitromicina, Ivermectina e Hidroxicloroquina.

  

“Eu sou a favor. Muitas pessoas já jogaram pedra, mas acredito que pode funcionar”, afirmou o médico em live realizada pelo MidiaNews.

A equipe está exausta, muitas pessoas estressadas, porque é uma doença muito estranha. O paciente está bem em um dia e um ou dois dias depois ele está gravíssimo, precisando de sedação e ventilação mecânica

  

Quando a gente fala em tratamento precoce (...) realmente tem que ser precoce mesmo! No primeiro ou segundo dia de evolução da Covid, não adianta nada você fazer um tratamento precoce com cinco ou dez dias de evolução. A chance de não responder é grande”, disse.

  

Ele também fez uma defesa da Hidroxicloroquina, o polêmico medicamento que virou alvo de grandes controvérsias.

  

"Nós tratamos malária, pacientes com lúpus, a gente usa Cloroquina “a rodo” e não acontece nada. E agora resolveram colocar um milhão de contraindicações".

   

MidiaNews - Podemos com segurança que o número de óbitos por Covid está diminuindo em Mato Grosso?

 

Francisco Kennedy Faleiros de Azevedo - Primeiramente o que quero enfatizar é que sim, está diminuindo o número de óbitos no Estado, em Cuiabá e Várzea Grande. Porém nós devemos manter o correto comportamento, evitando aglomerações, usando máscaras e procurando o serviço médico assim que tiver algum sinal ou sintoma sugestivo de infecção pela Covid.

 

MidiaNews - Qual o risco de as pessoas serem negligentes neste momento da pandemia?

 

Francisco Kennedy Faleiros de Azevedo - Diminuiu o número de óbitos, mas o problema é que ainda existem vários casos de infecções da Covid-19, o que pode levar a um quadro grave da doença ou até mesmo ser contaminado e levar para dentro de casa, onde existem pessoas que podem contrair a doença e acabar com um quadro de evolução desfavorável.

 

MidiaNews - Como infectologista, quais suas impressões sobre a doença após seis meses de pandemia?

 

Francisco Kennedy Faleiros de Azevedo - Estou na linha de frente e vou falar em nome de vários colegas médicos, colegas da enfermagem e da fisioterapia. A equipe está exausta, muitas pessoas estressadas, porque é uma doença muito estranha. O paciente está bem em um dia e um ou dois dias depois ele está gravíssimo, precisando de sedação e ventilação mecânica. A Covid-19 é uma doença muito estranha e muito grave para a saúde de uma maneira geral.

 

MidiaNews - Quais suas impressões sobre o trabalho na linha de frente?

 

Francisco Kennedy Faleiros de Azevedo - Quero deixar claro aqui que julho foi o pior mês que eu já vi na minha vida. Foi o mês que não tinha vaga de UTI nem em hospitais privados. E alguns pacientes infelizmente foram a óbito no quarto. Foram cenas desesperadoras. Por isso que mais uma vez a gente faz o alerta: graças a Deus a curva de número de óbitos está diminuindo, mas isso não nos dá motivos de sair e desobedecer as recomendações, aglomerar ou não fazer o uso de máscara. Mesmo a pessoa que já tenha contraído e se curou da doença. Vou falar o que vejo em algumas famílias: muitas pessoas não respeitam as precauções, chegando no ponto de um parente querido quase vir a óbito ou ir a óbito para se conscientizar da gravidade da Covid.

 

MidiaNews - Muito se fala das fases da Covid. O senhor pode explicar melhor estas etapas?

 

Francisco Kennedy Faleiros de Azevedo - A Covid pode ter três fases. A primeira, que cerca de 80% dos pacientes vão passar, é a fase em que a pessoa tem uma síndrome gripal, febre, dor no corpo, dor de cabeça, dor de garganta, mal-estar, obstrução nasal, coriza e espirros. Pode ou não ter diarréia, alteração do paladar, do olfato... Ou às vezes o paciente não tem nada, no caso dos assintomáticos. Na fase 1, a Covid pode durar de um a cinco dias e é caracterizada por uma alta replicação do vírus, uma multiplicação grande do vírus. Mas os pulmões estão ótimos. Então nessa primeira fase, cerca de 80% das pessoas vão parar por aí.

  

Sobre o manejo dessa fase primeira fase, é fazer repouso, lembrando que você tem que se afastar, fazer o isolamento domiciliar porque essa doença é muito, muito contagiosa. Você pode não estar sentindo nada ou com poucos sintomas e, de repente, levar para muitas pessoas, outras famílias. Então você tem que ficar em tratamento domiciliar. Lembrando que o isolamento tem que ser no período mínimo de 14 dias após o início da doença. A pessoa tem que beber bastante água, fazer uma alimentação balanceada adequada, nada de besteiras, comida pesada, nem gordurosa. Você pode fazer o uso de medicamentos sintomáticos. Por exemplo, se tiver dor no corpo tomar um analgésico, se tiver febre tomar uma Dipirona.

  

MidiaNews - Quais são estas fases denominadas mais graves da Covid e qual o procedimento nestes casos?

 

Francisco Kennedy Faleiros de Azevedo - Cerca de 15% das pessoas que são infectadas pela Covid vão evoluir para a segunda fase. É aquela que geralmente ocorre entre o sétimo dia de evolução da doença. Aquela síndrome gripal vai embora, aquela dor no corpo, coriza deixam de existir e o vírus diminui bastante a sua multiplicação. Porém pode machucar os pulmões e aí que vem a fase da pneumonia. Então 15% mais ou menos das pessoas vão evoluir para esta fase. A fase dois se subdivide em fase 2A e 2B. E é super simples essa diferenciação. A fase 2A é sem falta de ar e a 2B com falta de ar e com diminuição do oxigênio.

 

Neste momento é que está o segredo do tratamento da Covid. Porque se você identifica o seu paciente na segunda fase, você possui medicamentos que podem ajudar a diminuir essa inflamação dos pulmões, a diminuir essa falta de ar e reduzir a mortalidade. Então se o paciente está nesta fase, você tem que entrar com corticóide. O que a gente mais usa é a Dexametasona. Em um adulto usamos uma dosegem de 6mg por dia. O que você pode fazer é o seguinte. Para fazer uso de um anti-inflamatório por 24 horas, você pode quebrar e dividir no meio, de 12 em 12 horas, e ver como o paciente responde. Daí o paciente fica 24 horas com corticoide em atividade.

 

Outro detalhe importante: esse vírus pode evoluir como infecções bacterianas secundárias. Então neste caso é indicado o uso de um antibiótico.

MidiaNews - E a terceira fase?

 

Francisco Kennedy Faleiros de Azevedo - Infelizmente em torno de 5% das pessoas que entram em contato com o vírus, um pouco menos até, podem evoluir para essa terceira fase. Acontece após 12 dias de evolução, que é a síndrome respiratória aguda grave. É o caso daquele paciente que vai estar com muito desconforto respiratório, muita falta de ar, oxigênio muito baixo precisando de alto fluxo de oxigênio. E infelizmente um ou outro vai ter que acabar sendo sedado e entubado, colocando para respirar com ajuda do ventilador. O paciente sente essa grande falta de ar, além da inflamação intensa que ocorre no corpo inteiro.

 

MidiaNews - Qual o procedimento em casos de paciente que está na segunda fase, mas sentindo uma grande falta de ar?

 

Francisco Kennedy Faleiros de Azevedo - O paciente nesta fase, principalmente na fase 2B, em que o paciente está com falta de ar, precisa de um suprimento de oxigênio, o pulmão fica muito inflamado. E existem medicamentos que são muito utilizados pela reumatologia que diminuem as inflamações. São excelentes apesar de serem muito caros. Não são todos que têm acesso a estes medicamentos, mas são muito bons. Só que eles têm um problema: se a pessoa tiver uma chance de ter bactéria ou fungo, pode voluir com sepse (infecção generalizada). E aí o paciente já em quadro grave e o médico super ansioso, preocupado com a melhora do paciente, vai e usa um medicamento que pode zerar a resposta imunológica dele e evolui para uma sepse.

 

MidiaNews - Qual medicamento e procedimento para estes casos?

 

Francisco Kennedy Faleiros de Azevedo - Há um medicamento muito interessante, chamado Colchicina. Ele é muito utilizado no tratamento da gota, principalmente quando o paciente está com aquela crise, com uma artrite gotosa, que é o aumento excessivo do ácido úrico. E a Colchicina, além de ter os efeitos anti-inflamatórios para gota, age na interleucina 6, que é a interleucina responsável pela inflamação dos pacientes que têm Covid.

 

E inclusive há artigos mostrando o benefício da Colchicina nesses pacientes que estão na segunda fase. Lembrando que você tem que tomar cuidado com duas coisas. Primeiro a diarreia, porque ela pode dar uma diarreia violenta na pessoa. E segundo pode machucar um pouco o rim. E se machucar o rim tem que tirar o medicamento. Resumindo: a gente faz uso da Colchicina para alguns pacientes de segunda fase. Outros pacientes , inclusive quase indo pro tubo, e nós, claro, tomamos toda conduta e dá aquela melhorada, o paciente dá uma turbinada! Isto é mais um arsenal terapêutico que infelizmente há médicos que debocham: “Vou dar remédio de gota para pacientes com Covid”. Mas é um arsenal terapêutico que você pode fazer uso. Então tem toda uma conduta que você pode fazer para melhorar a oxigenação e diminuir a inflamação, prevenir ou tratar trombose e inclusive infecção bacteriana secundária.

 

MidiaNews - Com relação ao tratamento da Covid-19, o que o senhor recomenda?

 

 

Francisco Kennedy Faleiros de Azevedo - Falando em tratamento, o manejo clínico da Covid-19 requer um acompanhamento de perto entre o médico e o paciente. Tem que ser tipo um casamento, pois é uma doença que você precisa saber perfeitamente em que dia de evolução o paciente está, porque existem medicamentos que você usa numa segunda fase da doença que você não pode usar na primeira, senão você piora o prognóstico do paciente. Então primeiramente, você tem que ficar grudado no seu médico até você melhorar, ter alta do tratamento tanto internado no hospital ou no tratamento domiciliar.

 

MidiaNews - O que o senhor pode dizer a respeito do tratamento precoce da Covid?

 

Francisco Kennedy Faleiros de Azevedo - É um assunto polêmico. É mais polêmico que discutir religião ou futebol. Eu sou a favor. Muitas pessoas já jogaram pedra, mas acredito que pode funcionar. Leio muitos artigos científicos e tenho a humildade de discutir esses artigos com professores excelentes lá da UFMT. Quando a gente fala em tratamento precoce - lembrando que não é uma obrigação, não são todos os médicos que concordam, mas a grande maioria pensa assim - realmente tem que ser precoce mesmo! No primeiro ou segundo dia de evolução da Covid, não adianta nada você fazer um tratamento precoce com cinco ou dez dias de evolução. A chance de não responder é grande.

 

MidiaNews - Quais tipos de medicamentos para o tratamento precoce o senhor prescreve?

 

Francisco Kennedy Faleiros de Azevedo - Eu recomendo o uso da Azitromicina e Ivermectina para este tratamento precoce. Há artigos ótimos e estudos observacionais pequenos que mostram os benefícios da Hidroxicloroquina. Eu gosto muito, apesar de ter se criado uma polêmica muito grande em cima da Hidroxicloroquina relatando efeitos adversos no coração. Nós tratamos malária, pacientes com lúpus, a gente usa Cloroquina “a rodo” e não acontece nada. E agora resolveram colocar um milhão de contraindicações. Acredito que pode ser usado num tratamento bem precoce, primeiro ou segundo dia de comprovação de infecção da Covid.


Há um estudo muito interessante. O mundo inteiro tem mostrado que não há benefícios no uso da Hidroxicloroquina nos pacientes com infecções pela Covid. Porém discutindo isso com vários professores, tem duas coisas a serem relatadas, duas observações. Primeiro, eles não iniciaram este medicamento bem no início [da doença] a esses pacientes. A grande maioria já tinha cinco, seis e até mesmo sete dias de evolução. Então isto não é um tratamento precoce. E segundo, que não tem significância estatística neste trabalho. Então eles falando e não falando, não tem significância estatística, ou seja, não tem comprovação científica.

 

MidiaNews - De que forma age o tratamento precoce?

 

Francisco Kennedy Faleiros de Azevedo - O objetivo do tratamento precoce é que nós estamos diante de uma doença que não tem um tratamento específico, não tem um antiviral específico e não tem vacina ainda. E, pra falar a verdade, é uma roleta russa. A pessoa pode pegar doença e não acontecer nada, como foi no meu caso. Eu só tive espirros e um pouco de coriza, graças a Deus. Como também a pessoa pode ficar muito ruim e ir para UTI. No entanto, se você tem alguns medicamentos que podem ajudar por que não usar? Então a tentativa é até um pouco desesperadora para que aumente de uns 80% para 90% o número de pessoas que vão evoluir só até a fase um e consequentemente diminuir as outras fases mais graves.

 

MidiaNews - Por que certos pacientes de Covid desenvolvem até trombose?

 

Francisco Kennedy Faleiros de Azevedo - Esse vírus é muito esquisito. Ele tem uma capacidade de exercer uma atividade trombótica muito grande. Conheço pacientes que melhoraram da Covid, ficaram perfeitamente saudáveis com o passar do tempo, mas tiveram um AVC isquêmico, derrame, tiverem infarto ou tiveram um outro evento isquêmico, porque este vírus tem um efeito trombótico. Então você vai ter que usar medicamentos que tratam ou previnem trombose. A dose deste medicamento, no caso a Enoxaparina, varia conforme o peso do paciente, os fatores de riscos, ou as alterações laboratoriais, exames laboratoriais.

 

Em casos de muita alteração você está autorizado a entrar com Enoxaparina até em dose plena para tratar trombose, porque muitos pacientes fazem embolia pulmonar que pioram muito o quadro que já é grave.

 

MidiaNews - O que fazer logo de início ao ser diagnosticado com Covid-19?

 

Francisco Kennedy Faleiros de Azevedo - Nós vamos ficar atentos para duas coisas. Primeiro: em que dia de evolução o paciente está. Se ele está na fase 1, geralmente assintomáticos, para quem concorda com a possibilidade de tratamento precoce por orientação e se a pessoa puder saber o nível de oxigênio, tem que ser de 95% para cima. Isso é o ideal. Se a pessoa tiver na segunda fase, aí você pede uma tomografia, exames laboratoriais, além desse tratamento. Porque se tiver alterações, você já entra com com corticoide, com Enoxaparina subcutânea, e antibiótico. E quem sabe até uma conduta baseada no tempo de evolução do paciente, você tem que saber que dia de evolução ele se encontra. Por exemplo, você não pode dar corticoide para o seu paciente na primeira fase, porque a primeira fase um paciente tem muita multiplicação do vírus. Então se você dá, você pode dar uma diminuída na imunidade do paciente e consequentemente o vírus se multiplica mais ainda.

 

Nós não temos como prever se o paciente vai evoluir para as outras fases ou não. Então assim que possível o paciente notar evolução com coriza, dor no corpo, mal-estar, o médico tem que dar todo o suporte, tem que orientar, porém essa aqui é uma recomendação minha: se possível fazer uma tomografia de tórax no sétimo dia de evolução da doença. Porque se no sétimo dia você já achar alterações problemáticas, em alguns tipos de pacientes o médico já está autorizado a fazer o uso do corticóide que ajuda demais na diminuição da inflamação pulmonar.

 

Perceba que a trombose e até uma embolia pulmonar pode acontecer em alguns pacientes e podem tratar com alguns antibióticos, e alguns pacientes evoluem com infecção bacteriana secundária. Lembrando que não são todos os médicos que concordam com esse tratamento. A gente tem que respeitar a postura de cada um.

 

Os pacientes que eu vi falecer infelizmente foram pacientes que a maioria eram idosos já com comorbidades e que chegaram nesta terceira fase que comentei. Quando os pacientes chegam na terceira fase, é praticamente um milagre reverter a situação, infelizmente.

 

Fonte: Midia News


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